domingo, 13 de março de 2011

Um dia na pele dela.

                                                                                          Para Mônica


Cá estou nesta sala repleta de medos e inseguranças e temores. Meu pleonasmo é a solidão.
Estes olhos que já não vêem o que devia ser visto. O mar, o verde amarelo das folhas do outono, as flores da pequena árvore da fortuna, que jamais me trouxe fortuna é como aquele lugar chamado San Próspero que de próspero só o nome.
           Nesta vila cheia de odores pereiras e amoreiras nada me traz à vida. Mesmo que os frutos demonstrem que a cada primavera a flor ainda nasce, a  minha sede nunca terá fim.
Mais um gole amargo desta bebida desce goela. Daqui a pouco serão dez da noite, a babá irá embora e estaremos aqui eu e o meu dedo de Vênus a fazer-me companhia.
Quem sabe o telefone toca e tenha com quem vomitar o amargo da existência. A memória é quem ainda me alivia.  Mnemosine poderá vir e me atacar, mas até lá eu terei dito o que precisava ser dito.
Não me basta ter as babás e pagar para que algum cidadão me dê de comer. Tampouco a pena daqueles que foram próximos. Tudo me sufoca e preciso de algum alivio. A bebida já não me arrefece. Aquela seringa no armário...
           
Aquele homem que me levou à Grécia nunca mais o vi. Depois de tantos coitos e juras de amor eterno, mesmo que ele também jurasse à sua esposa, ele se foi. O homem me acalentava os pés e a alma, mas também não me fazia feliz vindo a cada 20 dias. Visitas aos empresários da região. E um jantar e um motel e uma dose de algum afrodisíaco químico não fazem tantos verões e varões.
É que ele era o único. Não mostrava os encanamentos interiores aos outros. Eu esperava sempre o Rio de Janeiro todo março, abril, maio, junho... e ele vinha como  a lua vermelha das mulheres. Sem problemas. Com flores e bombons.  Algumas vezes com algum livro comprado no aeroporto local. Já trouxe canequinhas de camelôs. Vi e lembrei de ti. E eu como uma flor regada à água de arroz me abria, esperando o leite fervido de Roma  em mim.
Se o amei? Amor é significante difícil de apresentar as verdadeiras possibilidades de conclusão do tema. Talvez ele tenha me tocado. O universo é bastante singelo ao apresentar-nos o verdadeiro amor. Um homem prático que jamais deixaria sua esposa por uma moça do interior. Sim, eu também já fui donzela. E quem não foi?  Um homem de negócios é sempre prático. Trabalha 12 horas. Dessas doze horas, cinco delas são a manutenção de sua intimidade fora do casamento. Seja futebol, amante ou maçonaria.  Nesta proporção que agora observo, meu papel se resumia a 24 horas dentro de um mês.
Se eram boas? Diz a velha mandinga que não importa a quantidade, mas a intensidade. Talvez tivesse certeza do que o amor é se tivesse tido mais tempo. No caso acima, a intensidade estava sempre presente. Homens com seu perfil adoram gueixas e são fiéis a ela por muitos anos. A esposa pede dinheiro, fala dos filhos, quer ir ao supermercado. Vamos ao shopping. Com Afrodite é o descarrego energético do stress diário que acontece. E muitas vezes o homem prático dá vazão ao seu lado instintivo e diz te amo. Mas amor é palavra sem  significado exato. Há eros, philia e ágape....
Em alguns casos a quantidade proporciona mais conhecimento da causa em si.

A Grécia foi uma bela experiência. As casas brancas contrastando com o mar e céu azuis. Quinze dias de transcendência. Passeios de barco. Jantares sob rochedos. Fotografias. Cinzeiros e olhos protetores. O kamasutra revisto. Menos cinco quilos.
Meus vinte e poucos anos e cinco deles com o homem de janeiro.
Outros rapazes também apareciam. Esporádicos como ele. Mas nenhum tinha a capacidade de fazer-me brincar de criança. Talvez por isso tanto tempo esperando-o.

Um comentário:

  1. fiquei beje com tão singela homenagem e feliz da vida de saber que vou poder te ler de novo. lembro da minha faceirice quando chegava uma crônica tua por e-mail e eu viaja contigo pela Itália, pelo Marrocos. Napoli nem imagina o quando perambulei por lá... um beijo cheio de amor e gratidão pelo presente, menina Katerina!

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