Imaginário, porta-reflexo, eu-fora-da-casinha, cinco elementos, constelações, novamente eu-dentro-da-casinha, conversa(a)fiada, intensidade, buracos negros, corpo, cinestesia, confluências, eu, o Outro, meu avô e os do lado de lá, as fiandeiras, ficção, retratos, um ovo é apenas um ovo. Humano, demasiadamente, humano!
terça-feira, 21 de maio de 2013
Sob o céu da rambla
"Ela estava cansada das mesmas dores, dos mesmos diálogos, das mesmas roupas amassadas e mal dobradas. Cansada estava de ver o passar dos dias, de ter os mesmos pensamentos obsessivos, de matar os dragões internos, de ver a praia ali tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante da vontade de estar dentro d´água. Cansada estava de se olhar no espelho, de ver o corpo que não paria, de ver as mãos que não criava. Até mesmo o ar que respirava lhe cansava. Os hábitos precisavam ser alterados. Sentia que as etapas estavam sendo vencidas, mas não sentia o crédito nem na conta bancária, tampouco no coração. Foram anos de investimentos e pérolas aos porcos. Mas um dia, numa bela tarde de sol, aconteceu algo raro: um gato apareceu. E sobre o gato havia uma borboleta. Os animais se aproximaram dela, ali, em frente à passarela da areia que ela tanto relutava em passear... A cidade em que vivia era dessas típicas cidades turísticas, cheias de som, glória e fúria. O gato e a borboleta se aproximaram da moça, porque ela era moça donzela no sentido mais profundo da palavra, e sussurraram "acabou o feitiço e você será feliz!". Ela piscou porque de onde vinha nem gato, nem borboleta falavam... E o gato ainda lhe piscou o olho, a borboleta zanzou no ar e quando a moça piscou de novo, nenhum dos dois estavam mais ali. A paz invadira o seu coração".
domingo, 3 de março de 2013
A preferida
"E ele se lembrava dela com carinho. Desses carinhos sem ter fim.
Do mesmo ponto que se despediram, se reencontraram.
Do mesmo ponto em que se encontraram, se reverberaram.
Envolvido em seus pensamentos, sorriu aquele sorriso maroto, daqueles sorrisinhos de canto de boca e coisa e tal e pensou e sentiu seus olhos marejarem. Sentia aquele ar envergonhado de si e carente dela. Sentia falta dela, mas não podia fazer absolutamente nada.
A vida seguia."
Do mesmo ponto que se despediram, se reencontraram.
Do mesmo ponto em que se encontraram, se reverberaram.
Envolvido em seus pensamentos, sorriu aquele sorriso maroto, daqueles sorrisinhos de canto de boca e coisa e tal e pensou e sentiu seus olhos marejarem. Sentia aquele ar envergonhado de si e carente dela. Sentia falta dela, mas não podia fazer absolutamente nada.
A vida seguia."
O elefante
Queria escrever uma poesia dessas bem bonitas, sabe. Dessas da gente ver e encher os olhos de lágrimas. Dessas que a gente lê e lembra de um grande amor, de uma boa noite, de um movimento coordenado com tamanha singeleza. Dessas poesias feitas para alguém que a gente tenha afinidade intelectual, afetiva ou sexual (e, neste último caso, fica bom quando nossa memória consegue ser o olho, a própria câmera que enxerga o ato feito por nós mesmos). Contudo, o que me vem é que um elefante incomoda muita gente; um elefante de mal humor, incomoda muito mais.
A moça do dragão de concreto
“E o pensamento chegava até ela.
Já fazia tempo que não se falavam. Ela tornara para o seu
antigo marido, esquema gente-jovem-reunida, moço bem apessoado, desempregado e ideologicamente-talvez-ativo,
coisa e tal. O fato é que tornara para ele. Afinal, repito, gente jovem tem
seus atributos.
Mas o pensamento insistia em chegar até ela. Ou ela chegava
até seu pensamento. Sem muito entender, rememorou. Pois nessas horas só há o
inexorável. A gente pensa e basta. Gasta o pensamento ou tenta gastar até o
fim, pra ver se desanuvia.
Pensou e reviveu o beijo, reviveu a noite, reviveu a luz.
Fez-se de câmera e olhou os cantos do quarto. Olhou os
cabelos arrevoados, pegou no seio, beijou-o. Olhou-a no olho e lhe disse que
era linda. Depois a viu pegar o seu corpo, arrastá-lo, esfregá-lo e tornou a
tocá-lo. Era bonito de se ver. A língua macia dela percorria o corpo. As suas
mãos, de artista que faz do concreto um dragão, tinham ritmo, asas e fogo.
Mesmo sendo água e rio e mar.
E, no entanto, depois de uma dança de borboleta, depois de uma onda de mar quebrada na areia, como num filme, apareceram personagens não
convidados e uma legenda em um idioma desconhecido. Deu-se a entender, toscamente, um ‘the end’
miado e chocho. Tornou-se uma estória-tesão-triste. Nenhuma lágrima. Apenas o gozo que não foi e poderia ter sido.
E, hoje, em meio a um avião e outro, ela voltou `a memória porque talvez
quisesse se fazer presente. Talvez porque o inexorável a tenha pegado de surpresa; talvez pela lembrança recíproca.
Por isso a poesia".
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