domingo, 3 de março de 2013

A preferida

"E ele se lembrava dela com carinho. Desses carinhos sem ter fim. 
Do mesmo ponto que se despediram, se reencontraram. 
Do mesmo ponto em que se encontraram, se reverberaram. 
Envolvido em seus pensamentos, sorriu aquele sorriso maroto, daqueles sorrisinhos de canto de boca e coisa e tal e pensou e sentiu seus olhos marejarem. Sentia aquele ar envergonhado de si e carente dela. Sentia falta dela, mas não podia fazer absolutamente nada. 
A vida seguia."

O elefante

Queria escrever uma poesia dessas bem bonitas, sabe. Dessas da gente ver e encher os olhos de lágrimas. Dessas que a gente lê e lembra de um grande amor, de uma boa noite, de um movimento coordenado com tamanha singeleza. Dessas poesias feitas para alguém que a gente tenha afinidade intelectual, afetiva ou sexual (e, neste último caso, fica bom quando nossa memória consegue ser o olho, a própria câmera que enxerga o ato feito por nós mesmos). Contudo, o que me vem é que um elefante incomoda muita gente; um elefante de mal humor, incomoda muito mais.

A moça do dragão de concreto


“E o pensamento chegava até ela.
Já fazia tempo que não se falavam. Ela tornara para o seu antigo marido, esquema gente-jovem-reunida, moço bem apessoado,  desempregado e ideologicamente-talvez-ativo, coisa e tal. O fato é que tornara para ele. Afinal, repito, gente jovem tem seus atributos.
Mas o pensamento insistia em chegar até ela. Ou ela chegava até seu pensamento. Sem muito entender, rememorou. Pois nessas horas só há o inexorável. A gente pensa e basta. Gasta o pensamento ou tenta gastar até o fim, pra ver se desanuvia.
Pensou e reviveu o beijo, reviveu a noite, reviveu a luz.
Fez-se de câmera e olhou os cantos do quarto. Olhou os cabelos arrevoados, pegou no seio, beijou-o. Olhou-a no olho e lhe disse que era linda. Depois a viu pegar o seu corpo, arrastá-lo, esfregá-lo e tornou a tocá-lo. Era bonito de se ver. A língua macia dela percorria o corpo. As suas mãos, de artista que faz do concreto um dragão, tinham ritmo, asas e fogo. Mesmo sendo água e rio e mar.
E, no entanto, depois de uma dança de borboleta, depois de uma onda de mar quebrada na areia, como num filme, apareceram personagens não convidados e uma legenda em um idioma desconhecido.  Deu-se a entender, toscamente, um ‘the end’ miado e chocho. Tornou-se uma estória-tesão-triste. Nenhuma lágrima. Apenas o gozo que não foi e poderia ter sido.

E, hoje, em meio a um avião e outro, ela voltou `a memória porque talvez quisesse se fazer presente. Talvez porque o inexorável a tenha pegado de surpresa; talvez pela lembrança recíproca.
Por isso a poesia".