quinta-feira, 17 de março de 2011

Ao Outro

Senti um embrulho no estômago
É, eu já sabia da possibilidade de que tudo desse errado
Que vovó não te deixasse partir
                                                                                  
                                                                                                  O astral nos prega peças!

O embrulho no estômago persistiu
Deixei um mês congelado no tempo
Cachorro, gato e o caraio
Fui compasso de mim mesma.
Girei, girei e não subi!
                                              
                                                                                 Ah! Se a gente ouvisse o que mamãe dizia...
                              
Foi-se um tempo raro
Não bastava eu ter o mesmo nome ou um genérico...
Ledo engano pensar que eu seria àquela que lhe daria de comer
Eternidade é agora        
Só a Moira está entre nós

Esta sim, com suas irmãs tecem melhor que Penélope no escuro          

O dia em que Ulisses chegar
Ah! O dia em que ele usar seu arco ...
Eu vou me acabar na orgia!

segunda-feira, 14 de março de 2011

A tar da estabilidade


     Entre moderninhos, esquerdistas, anarquistas, direitinhos, donas do lar, colegiais, empresários, artistas, e outras qualificações ideológicas e estereotipadas, o assunto agora é a estabilidade. Estabilidade financeira, amorosa, sexual, afetiva, eleitoral, religiosa, política, profissional, econômica, e os seus sinônimos e derivados, esvai-se em um tonel de divisões e idiossincrasias, mas enfim... para sermos mais exatos, está na boca do povo na voz divina,  na moda! Ulala!
E dá para se divertir um bocado pensando na diversidade de conceitos que permeia a voz de deus para ser estável!!
           Além das politicagens eleitorais que entram em vigor a partir de agosto com mais intensidade, as distintas senhoras dos Jardins já começam a elocubrar manifestações em prol da estabilidade.Você vai votar em quem? Penso. Votarei na oposição. Ah! Mas a gente tem que amar o nosso país. Incrédula e reflexiva ainda. Eu também amo meu país, mas estabilidade para quem, a estabilidade que em cada esquina me pede dinheiro, que apresenta números altíssimos de desemprego, que não oferece o básico para se viver com dignidade (vide salário mínimo, é quanto, 150 por mês?)? Estabilidade para a senhora que tem casa, carro é uma coisa. Que estabilidade a senhora propõe? Olha, meu patrimônio se resume a meus livros, meus discos e minha bicicleta. Não tenho medo.
Silêncio. A provocação do caos apavora os acomodados.
Os enamorados, ou pseudo-namorados, que avaliem. E os casamentos de fachada? Quantas donas de casa e distintos senhores não se estagnam em frente à TV todo domingo, vendo o Faustão e pensando que vida besta é essa que tenho. É evidente que há afinidades e gosto para determinadas ações, mesmo ver o Gugu (para não repetir o exemplo!!!) tem a sua porção boa quando é visto com paixão, ops, paixão pelo outro, pela vida, pelo passarinho cantando na sua janela em um domingo ensolarado e você, que dormiu como um verdadeiro Zeus/ Afrodite, acorda sorrindo e dá aquele abraço gostoso na sua véinha. E muitas vezes os exemplos da manutenção, como no gracioso “ruim com ele, pior sem ele”, consagram-se e tornam-se o dogma por toda a vida. TFP (traduzindo: Tradição/ Família/ Propriedade)  é uó!
A Paixão é a engrenagem da vida.
A desordem reavalia os verdadeiros paradigmas da sociedade. Bin Laden atravessou com seu arco metálico o arco-íris do capital e viveu dias de glória e linchamento virtuais. A casa caiu e estupefatos todos assistiam a CNN, Rede Globo, Internet e cia. Ltda. Queríamos entender toda a história, queríamos saber quem era o herói e quem era o malvado. E você vê... o discurso montado é rápido, ligeiro. Nós sempre fomos bonzinhos, olha só, você matou mais de x mil pessoas, nós vamos acabar com o terror. Qüe,qüe!!!
Veja bem, meu caro Watson, você tem certeza que a história é essa mesma? A gente nem sabe quanto é realmente a inflação..??? O Ricupero que o diga naquela versão “ a gente maqueia!” em plena TV!!! E ninguém fez nada. A estagnação taí gente, a CPMF taí, e nós não abrimos a boca e só gritamos quando conquistamos a Taça.
Fiquemos atentos: o discurso será sempre o mesmo e cada vez com mais sofisticação. Variam na intensidade, na sintaxe morfológica das criações nefastas de marqueteiros de plantão, dos desconfiados que acreditam no até que a morte nos separe, nas criaturas oriundas, teúdas e manteúdas do status quo apresentado no momento, enfim, pra ser bem genérico e abrangente, abram os olhos e tentemos ser mais honestos consigo mesmos.

o inverno é a TPM das estações

frio aumenta a cada dia
as pessoas dentro de casa
e a biblioteca continua sendo minha amiga

o vento, às vezes, é tao forte que faz redemoinhos de
folhas secas
é um pouco lavoura arcaica

os cafes, sempre lotados
la é quente
o ônibus é quente
as lojas são quentes
so a rua nao é quente

queria escrever algo bem bonito
mas  os 99% da minha transpiracao nao evaporam
obvio
sete graus ou menos
inclusive entre as pessoas
e a inspiracao
tambem nao eh uma das melhores
como diz a  santa Monica
o inverno é a TPM das estacoes

Mandala

Faz dez dias que vou toda tarde a uma biblioteca
É menos frio que ficar na praça 
Andando como uma qualquer por aí
Posso ler e escrever em um ambiente quente
La fora é frio, distante e desagradavel.
Dez graus ou menos para o meu calor

Lembro-me de Asas do Desejo, talvez um dos melhores
filmes que ja vi
Penso que ha anjos me olhando enquanto estou aqui
As vezes penso que isso realmente é verdadeiro e fico
feliz
De nao me sentir só

A saudade continua
Ouço Cordel do Fogo Encantado
Chovia esta manha quando vinha para Módena
Choveu, dizia Liminha (ou sera Lirinha?)
E eu chovia por dentro
Chorava de saudade
Era água por todos os lados: lá fora e aqui dentro

Todo dia ouço música no ônibus
Um dia Gil
Noutro Chico Science
Noutro Natasha Atlas
Noutro um napolitano
Noutro Tribo de Jah
Noutro Chico, meu Buarque
Hoje Cordel
Geralmente ponho uma música com ritmo feliz para ir
Acordando, brincando de Pollyana.
Ficar contente e dar bom dia para todo mundo
Sabe que agora digo
Bom dia
Buon giorno, quero dizer…
Vou acostumando com la solitudine

Fatos nao agradaveis, vou esquecendo
Fatos prazeirosos, vou guardando
Guardo
Se lembro deles todo dia me faz mal
Por isso o tempo é espaço
A fisica em todos os lugares
E me maravilho

Descubro que o livro que dei a meu irmao no dia de sua viagem
Em Janeiro
Havia um conto chamado Castel Sant’Angelo
Em agosto, fui à Roma, conheci o mausoleu de Adriano,
O nome do Manji,
E que escreveu um poema sobre a alma.
No conto, que li
Em outubro
Uma historia como Tosca
Que tambem vi em agosto
E lá, no livro, que li
Está lá
A traduçao do poema que fotografei
Nao pude acreditar.
Meu irmao nao havia levado o livro de volta ao Brasil.
Ele estava aqui.
E somente veio parar aos meus olhos
Depois de Tosca, depois de Roma, depois de
Experimentar a morte
Mesmo simbólica
Do que me era presente, vivo e saudável (talvez nem
tanto saudavel)

A morte da presença
De Erika
Da Mu
Do Taci
Da Monica
Da Cris
Da morte do meu amor Manjidesco
Da morte
De Andre
De Roger
De Ed
Do meu saudoso Cafe do Bexiga
E da minha lira, Socorro
De Juliana
De Campilongo
De Ivania
De Karina
E da Grandissima Poli !
De Planin (va la esta era uma morte desejada !!!)
E da Monica e da Deise, minhas mulheres de marmore e
de pedra
Morte morrida de meu fuminho diario
De minha catuaba
De meus incensos
De minhas velas
De alguns cds
Dos meus livros e papeis e objetos de decoraçao
A morte dos telefonemas diarios
E dos emails sagrados
A morte dos shows no Sesc, no  Villagio e no Supremo
E dos shows particulares 
No meu quarto
Da minha cama de casal, melhor, colchao
E do meu quadro dos amantes com o poema da Cecilia Meirelles
E do vaso azul com flores secas
Das fotos
Tambem
Da Elza
Dos bares gays
Do Tom Ze
Do Ze Ramalho
Da Cassia Eller
Do Baden Powell
Da Clara Nunes 
E do Karnak
E da Rita Ribeiro

Morte da saudosa Trindade
De Caraiva, dos meus onze melhores dias
Da Chapada dos Guimaraes
Da Prainha Branca
Ate de Bauru
e Da minha barraca de camping
E da minha bicicletta
do Ibirapuera e da Gal Costa cantando ali
do Alceu, meu cabeludo amado
E de maracuja e de graviola e de agua de coco
E da zona da Republica
Da Augusta, da Angelica e da Consolaçao
E de Santo Amaro
E ate do Largo 13
E …

É dificil
Tudo bem, aqui posso ver o que vocês veem nos livros
Mas mesmo assim a morte esta aqui
E tudo bem que tenho me divertido e conhecido e
experimentado
E me aplicando  o que a Italia pode oferecer
Mas nao é assim
Roma, Verona, Bologna (grande Bologna das festas
internacionais…)

Ainda me maravilho com a chuva
Por que sei que era necessario tudo isso
Entendi um pouco a morte e sua foice
E entendi a roda
Entendi um pouco a fortuna e a des-fortuna
E saibam
Nao sou sábia
Mas vi que faço parte e chorei quando encontrei 
O poema de Adriano
E 
Renasci

Assim como a chuva molha o solo e germina
Minhas lagrimas descem meu colo e 
Semeiam meu coraçao.


(11/10/02 - 15h30 - na biblioteca Delphine, em Modena)

nós dois

"Nós dois - somos um par de sempre verdes, inflamados por uma faísca
Duas chamas em um bosque da meia-noite
Nós dois - somos meteoros noturnos voando
Uma flecha dupla em busca de um destino indivisivel
 
Nós dois - somos dois cavalos, uma mão segurando o arreio para tomar as rédeas e conduzir furiosamente
Nós dois- somos dois olhos que compartilham uma visão
Asas movendo-se rapidamente por um único sonho
 
Nós dois - estamos de costas, uma dupla de sombras dolorosas
No cemitério de mármore da beleza divina
A expansão equívoca de um só mistério.
A dupla de nós- compartilha uma esfinge.
Nós somos os braços de um só crucifixo"
 
Vyacheslav Ivanov

Katerina

Das coisas que mais gosto,
estar com a menina Katerina
em seu templo de beleza afrodisíaca.
Penso que vem, já foi
estudar filosofia.
De estrela entende tudo,
aprendeu numa viagem à Índia (segredo meu e dela esta viagem).
Diz que o avô era inventor
e ela foi bem inventada.
Da vida não tem medo
nem quando a vida a espezinha.
Escreve crônicas,
faz magias,
atravessa oceanos.
Já foi ter com defuntos em Módena
em busca de uma lira.
Acorda cedo,
dá leite ao filho,
vai ao Marrocos,
vem pra Bahia.
E volta
para o bairro da Liberdade.
Arrasta homens,
arrasa leitos
E rompe.
Rompe a polaca
com tudo que é médio.
Rompe a polaca
com tudo que é tédio.
A revolução virá,
sei que ela virá,
disse o camarada poeta.
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita
e atende pelo nome
Katerina.

domingo, 13 de março de 2011

Para Foucault

Passou o Carnaval
É tempo de quaresma
de não beber
de não comer carne
de não se usar a carne

Tempo de resguardo
Controle do tempo
e de seus dispositivos

Os ovos, os de chocolate podem ser devorados agora
Engordar pode
Ficar com espinha pode
Alimentar a indústria pode

Domingo é dia de dormir cedo
Não pode trepar não!
Tem-se que acordar e começar a vida louca bem cedin
Buzina-Roupa de molho-Criança na escola-Pagamento de conta
E eles precisam é trabalhar
não vagabundear...

Os ovos de páscoa estão lá
à nossa espera
A gente pode engordar, trepar não!
Menos ainda num domingo...

Ao Rodrigo, pelo Manoel de Barros

"Você olha um relógio. Ele funciona, mostra as horas. Você tenta compreender como ele funciona e o desmonta. Ele não anda mais. E no entanto essa é a única maneira de compreender..." Andrei Tarkovski (1932-1986)


“Ao Rodrigo, pelo Manoel de Barros”


Ela tentou  novamente falar pelo telefone
Não conseguiu mais uma vez

Tu me negaste três vezes, Pedro!

Foi falta de vontade?
Foi falta de sorte?
Ou foi
Simplesmente um eu não quero mais você
nem saber de ti?
As três alternativas podem estar corretas.

Esse  encontro de uma lua cheia havia sido forte
Junto ao  caro e querido lunático
A moça havia dito que o seu problema é que ela sentia-tudo-muito.
Tudo-muito

Apaixonou-se
Entendeu só depois

Ah! O envolver-se...

A teoria de que mais de três encontros gera envolvimento emocional
É uma realidade dela
A menina não consegue não se dissipar
Depois ela tem que parir a fórceps o que restou

Dá um trabalho...

Intensidade e quantidade são bem distintos
Ela sabe e vive assim

E ainda houve as férias que não foram férias
e deu pra fazer muitas coisas, não todas que ela gostaria
Porque pensar no menino requisitou muita energia
Foi muita libido para o ralo
Literalmente

O tempo deu chance para ela construir um telhado
Fincar alicerces de cuidado consigo mesma
Trocou o chuveiro para não tomar banho de água fria
Consertou os encanamentos
Vazamentos de água na casa
Pura emoção saindo pelas paredes
Os vidros foram colados


A casa está limpa
Organizou e rezou

Foi para o espaço a ver se falava com os astros
Conseguiu  contato

A moça inventou mil frases
Conversas imaginárias
Puxadas de papo

Tudo cerebral

E sexo é libertador

Ela anda pensando em fazer propostas indecentes
Sexo sem compromisso e coisa e tal
Afinal
São dois jovens saudáveis
Riem e se divertem

A cripta do menino era boa para esses encontros de fim de tarde
De logo cedo
De fim de semana
E com noite de lua ficava melhor

E sexo gostoso todo mundo gosta
O outro Manuel
o Bandeira dizia que os corpos sempre se entendem
Mas as almas não

É mais simples


O que ocorre é que essas coisas
mexem demais na organização
Aquela coisa mente-corpo
Alma-corpo
Soma-psiquê
E o resto 
E o mais da psicologia e demais ciências criadas no século XIX podem dizer mais sobre isso

Antes havia o delayyyyyyyyyyyy emocional
De uns tempos pra cá, ela sentia  mais rápido
Mais próximo do fenômeno

Agora:  Reverbera na seqüência
A menina não se deu conta da intensidade na hora

“Dei-me conta da ausência”

Sofreu
chorou
e sofreu
e depois passou como num passe de mágica
por fim, veio o desapego
porque só vale a pena quando duas pessoas querem
no demais, é melhor continuar só

                                                                                             hexagrama 17 - Seguir
Então, a menina resolveu fazer algo
Não sabia o quê
Precisava criar
Expurgar
Expulsar
Transmutar
Dar forma a algo que prestasse disso tudo
Nem que fossem por palavras

A difícil semiótica do interesse
Fazer esse jogo de interpretação
Ai

optemos pela simplicidade


Ela saiu do script com o menino
Do seu script
Desorganizou e foi ouvir “Galáxias”
Depois viu Tarkoviski

A menina poetisou
Pariu o que lhe perscrutava as entranhas


Quantos insetos e borboletas e tudo o mais
Sairão daquele buraco na árvore?
Quanto tempo mais vai existir?


O que dá para agradecer do todo-e-começo-e-fim-e-fim-e-começo-e-nãoseioquêmais
Porque o menino havia sido deveras importante
O menino a levou para outras abstrações que havia tempos que ela não andava do lado de lá
Na verdade, a menina não sabia que ainda podia sentir o que sentira

A sutil e tênue importância do contato 

Ela só sabe o que ela sentiu  e usa a citação dele “pulsão de vida”

                                                                                                                        O moço vive em redomas
 para chegar lá perto
são 376 muralhas da china a atravessar


A menina resolveu agradecer pelo menos,  
pelo Manoel de Barros
Descoberta genial dos pirilampos da mente
“Ao Rodrigo, sempre grata pelo Manoel”

E desde então a  menina está com o Manoel...

E parece que com ele está bem acompanhada
Ri.


opus canto desabafo - Sinfonia No. 01 para os ex.



Sou sempre a mesma
Aqui e lá
E ao mesmo tempo diferente de todas as outras matrioskas
Os cabelos têm caído
A mesma força e não mais a mesma
Outrora muito rude muito carranca muito plus
Por falta de dor
O tempo trouxe todas
Ao mesmo tempo
Santificada seja o teu nome
a dor
a dor a
adorar


Somente as músicas 
entre eu e você é que restaram
E todos podem ouvir ao mesmo tempo
agora
Mas são as músicas-estórias-olhares
Apenas som que houve entre nós

A cumplicidade permanece mesmo com o tempo
E as peles de pêssego se renovam
De outros meios em outros
Instantes

A dor da partida é sempre uma dor
Duída
Da mudança de hábitos

Ver partir um amor é desfazer-se
Entre tantas opções é trocar de hábitos
Sim ou sim
Não mais aquele telefonema, não mais aquela expectativa

Porém, eu sou a mesma e nova
Em tantas novas utopias
Saber se se sucumbe ou se se sobrevive é o desafio
A entrega ao novo é dolorosa 
do bebê à morte
tem-se que tirar a pele de algum lugar
abrir uma janela que estava fechada
ou fechar uma porta definitivamente

A dor será na medida do pé e do sapato.
  
As circunstâncias serão sempre novas.

Não me lembro de ter estado aqui antes. 
neste planeta.