Faz dez dias que vou toda tarde a uma biblioteca
É menos frio que ficar na praça
Andando como uma qualquer por aí
Posso ler e escrever em um ambiente quente
La fora é frio, distante e desagradavel.
Dez graus ou menos para o meu calor
Lembro-me de Asas do Desejo, talvez um dos melhores
filmes que ja vi
Penso que ha anjos me olhando enquanto estou aqui
As vezes penso que isso realmente é verdadeiro e fico
feliz
De nao me sentir só
A saudade continua
Ouço Cordel do Fogo Encantado
Chovia esta manha quando vinha para Módena
Choveu, dizia Liminha (ou sera Lirinha?)
E eu chovia por dentro
Chorava de saudade
Era água por todos os lados: lá fora e aqui dentro
Todo dia ouço música no ônibus
Um dia Gil
Noutro Chico Science
Noutro Natasha Atlas
Noutro um napolitano
Noutro Tribo de Jah
Noutro Chico, meu Buarque
Hoje Cordel
Geralmente ponho uma música com ritmo feliz para ir
Acordando, brincando de Pollyana.
Ficar contente e dar bom dia para todo mundo
Sabe que agora digo
Bom dia
Buon giorno, quero dizer…
Vou acostumando com la solitudine
Fatos nao agradaveis, vou esquecendo
Fatos prazeirosos, vou guardando
Guardo
Se lembro deles todo dia me faz mal
Por isso o tempo é espaço
A fisica em todos os lugares
E me maravilho
Descubro que o livro que dei a meu irmao no dia de sua viagem
Em Janeiro
Havia um conto chamado Castel Sant’Angelo
Em agosto, fui à Roma, conheci o mausoleu de Adriano,
O nome do Manji,
E que escreveu um poema sobre a alma.
No conto, que li
Em outubro
Uma historia como Tosca
Que tambem vi em agosto
E lá, no livro, que li
Está lá
A traduçao do poema que fotografei
Nao pude acreditar.
Meu irmao nao havia levado o livro de volta ao Brasil.
Ele estava aqui.
E somente veio parar aos meus olhos
Depois de Tosca, depois de Roma, depois de
Experimentar a morte
Mesmo simbólica
Do que me era presente, vivo e saudável (talvez nem
tanto saudavel)
A morte da presença
De Erika
Da Mu
Do Taci
Da Monica
Da Cris
Da morte do meu amor Manjidesco
Da morte
De Andre
De Roger
De Ed
Do meu saudoso Cafe do Bexiga
E da minha lira, Socorro
De Juliana
De Campilongo
De Ivania
De Karina
E da Grandissima Poli !
De Planin (va la esta era uma morte desejada !!!)
E da Monica e da Deise, minhas mulheres de marmore e
de pedra
Morte morrida de meu fuminho diario
De minha catuaba
De meus incensos
De minhas velas
De alguns cds
Dos meus livros e papeis e objetos de decoraçao
A morte dos telefonemas diarios
E dos emails sagrados
A morte dos shows no Sesc, no Villagio e no Supremo
E dos shows particulares
No meu quarto
Da minha cama de casal, melhor, colchao
E do meu quadro dos amantes com o poema da Cecilia Meirelles
E do vaso azul com flores secas
Das fotos
Tambem
Da Elza
Dos bares gays
Do Tom Ze
Do Ze Ramalho
Da Cassia Eller
Do Baden Powell
Da Clara Nunes
E do Karnak
E da Rita Ribeiro
Morte da saudosa Trindade
De Caraiva, dos meus onze melhores dias
Da Chapada dos Guimaraes
Da Prainha Branca
Ate de Bauru
e Da minha barraca de camping
E da minha bicicletta
do Ibirapuera e da Gal Costa cantando ali
do Alceu, meu cabeludo amado
E de maracuja e de graviola e de agua de coco
E da zona da Republica
Da Augusta, da Angelica e da Consolaçao
E de Santo Amaro
E ate do Largo 13
E …
É dificil
Tudo bem, aqui posso ver o que vocês veem nos livros
Mas mesmo assim a morte esta aqui
E tudo bem que tenho me divertido e conhecido e
experimentado
E me aplicando o que a Italia pode oferecer
Mas nao é assim
Roma, Verona, Bologna (grande Bologna das festas
internacionais…)
Ainda me maravilho com a chuva
Por que sei que era necessario tudo isso
Entendi um pouco a morte e sua foice
E entendi a roda
Entendi um pouco a fortuna e a des-fortuna
E saibam
Nao sou sábia
Mas vi que faço parte e chorei quando encontrei
O poema de Adriano
E
Renasci
Assim como a chuva molha o solo e germina
Minhas lagrimas descem meu colo e
Semeiam meu coraçao.
(11/10/02 - 15h30 - na biblioteca Delphine, em Modena)
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