“E o pensamento chegava até ela.
Já fazia tempo que não se falavam. Ela tornara para o seu
antigo marido, esquema gente-jovem-reunida, moço bem apessoado, desempregado e ideologicamente-talvez-ativo,
coisa e tal. O fato é que tornara para ele. Afinal, repito, gente jovem tem
seus atributos.
Mas o pensamento insistia em chegar até ela. Ou ela chegava
até seu pensamento. Sem muito entender, rememorou. Pois nessas horas só há o
inexorável. A gente pensa e basta. Gasta o pensamento ou tenta gastar até o
fim, pra ver se desanuvia.
Pensou e reviveu o beijo, reviveu a noite, reviveu a luz.
Fez-se de câmera e olhou os cantos do quarto. Olhou os
cabelos arrevoados, pegou no seio, beijou-o. Olhou-a no olho e lhe disse que
era linda. Depois a viu pegar o seu corpo, arrastá-lo, esfregá-lo e tornou a
tocá-lo. Era bonito de se ver. A língua macia dela percorria o corpo. As suas
mãos, de artista que faz do concreto um dragão, tinham ritmo, asas e fogo.
Mesmo sendo água e rio e mar.
E, no entanto, depois de uma dança de borboleta, depois de uma onda de mar quebrada na areia, como num filme, apareceram personagens não
convidados e uma legenda em um idioma desconhecido. Deu-se a entender, toscamente, um ‘the end’
miado e chocho. Tornou-se uma estória-tesão-triste. Nenhuma lágrima. Apenas o gozo que não foi e poderia ter sido.
E, hoje, em meio a um avião e outro, ela voltou `a memória porque talvez
quisesse se fazer presente. Talvez porque o inexorável a tenha pegado de surpresa; talvez pela lembrança recíproca.
Por isso a poesia".
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